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Sábado, 26 de Fevereiro de 2022, 10h:47

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MARCELO GERALDO COUTINHO HORN

O senhor da guerra e o arquiteto da nova ordem mundial

Por: MARCELO GERALDO COUTINHO HORN

Reprodução

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MARCELO GERALDO COUTINHO HORN, advogado e professor universitário (UNEMAT), Especialista em Direito Público, Mestre em Direito, Doutorando em Linguística.

No livro "Les Prophéties", publicado em 1555, o astrólogo francês Nostradamus, conhecido como profeta do destino, citou uma possível guerra na Europa em 2022.

O francês, que morreu em 1566, tem previsões que ganharam fama em todo o mundo, pois indicaram acontecimentos reais, como o assassinato de John F. Kennedy, a ascensão de Adolf Hitler e o incêndio de Londres, em 1666.

A guerra na Europa prevista por Nostradamus, não menciona diretamente a Rússia ou a Ucrânia, no entanto, o profeta diz sobre uma ameaça à França, vinda "do Leste”, que deve ocorrer entre março e junho, na primavera europeia.

Se, nos dias de hoje, o Brasil fosse um país coerente estaria envidando junto com a ONU todos os esforços diplomáticos para evitar a guerra na Europa em 2022. Não pela profecia do famoso francês, mas porque uma guerra no continente europeu seria desastrosa para o conjunto da economia nacional. Quer seja pelo volume dos negócios com a União Europeia, quer seja pelo efeito da guerra sobre os preços do petróleo e do gás natural.

Limitada como está, no interior das fronteiras da Ucrânia, para onde foi dirigida a agressão russa, a resposta global coordenada pelos Estados Unidos da América e União Europeia, baseada em sanções econômicas e embargos comerciais contra o sistema bancário, oficiais do regime e elite empresarial dentro das fronteiras russas, o Brasil que não possui um comércio bilateral tão grande assim com aquele país (cerca de 200 milhões de exportações e mais ou menos 4 bi de importações) já pode ficar bastante prejudicado, pois o grosso de nossas importações da Rússia são fertilizantes, necessários para a produtividade do setor mais forte da economia nacional: o agronegócio. Sem os fertilizantes, ou com dificuldade de acesso a eles pelas sanções estadunidenses e europeias, o país precisa buscar com outros fornecedores ou terá de reduzir o plantio, amargar redução de safra e perder oportunidades de negócios com os parceiros comerciais que adquirem nossa produção agrícola.

Se o conflito se expandir e o astrólogo francês Nostradamus estiver certo em sua profecia, ele irá arrastar vários e importantes países para a guerra. De pronto tem um erro na profecia. A ameaça maior do conflito não é com a França, mas com a Alemanha que é muito dependente energeticamente dos russos. Essa dependência alemã, mais de 40% da energia que consome, vem da velha terra dos czares.

A insistência norte-americana em tornar a Ucrânia um membro da OTAN era para ter maior controle sobre os gasodutos que saem dos campos de produção de gás natural da Rússia para os centros de consumo europeus. Vladimir Putin já tinha uma estratégia para contornar os possíveis problemas de embargos ao longo dos gasodutos com a construção do Nordstream 2, um gasoduto que sairia dos campos de produção de gás natural russos chegando à Europa Ocidental de modo submarino, pelo Mar do Norte, evitando cruzar as Balcãs ou os países do Leste Europeu.

O interesse norte-americano é que os alemães não comprem o gás natural russo, mas, ao contrário, importem o seu shale gas ou gás de xisto. Por isso se opõem ao novo gasoduto russo. Há dois problemas técnicos para os alemães fazerem essa mudança; primeiro, o shale gas não pode ser transportado por gasoduto pois precisa ser liquefeito; segundo, uma vez que o shale gas chegasse ao destino precisaria voltar do estado líquido para o gasoso para ser utilizado e a Alemanha ainda não possui estrutura para isso.

Se a gente achar a Alemanha cuja dependência energética dos russos chega a 40%, imagina então o que pensar da Itália que depende 70% do gás de Moscou? Se o conflito iniciado por Putin invadindo o país vizinho aumenta e mais países entram no confronto, o alinhamento de cada um vai seguir mais os próprios interesses do que os interesses estadunidenses. Os italianos, p.ex., dificilmente vão poder contar com o shale gas norte-americano por conta da alta dependência e dificuldade de extração, transporte e armazenamento. Os franceses, por sua vez, não desmontaram sua matriz energética nuclear e são menos dependentes do gás russo que alemães e italianos.

Ah, matriz energética nuclear. Isso imediatamente lembra que estes países europeus são potências nucleares, possuem arsenais atômicos próprios. O mais sensato seria que Vladimir Putin recuasse. Limitasse a incursão na Ucrânia às regiões de Donetsk e Luhansk, ou região do Donbass, que não estão sob o controle de Kiev pelo menos desde 2015. Que Zelensky desistisse de ingressar na aliança da OTAN, cumprindo os tratados de Minsk sobre a segurança dos Estados europeus, como a cláusula que diz que nenhum dos estados-membros aumentará suas defesas militares à expensas de terceiros.

O que não parece sensato é alinhar-se segundo princípios a qualquer um dos partidos neste conflito com risco de ampliação. Cravar agora que se é a favor da Ucrânia ou a favor da Rússia num conflito que tem todos os ingredientes necessários para fermentar e crescer por causa de questões ideológicas pueris, tais como a visita de Bolsonaro a Putin momentos antes da agressão à Ucrânia, da manifestação da nota dos senadores do PT contra OTAN. É muita burrice, porque se amplia o conflito, vai ficar de mãos dadas com gente completamente ao contrário do que pensa e acredita.

O mais sensato é ser contra a guerra. O mais sensato é o entendimento e o diálogo diplomático. Torcer por Putin, torcer por Biden é insensato porque todos estão errados em um ponto ou mais do conflito em Kiev. O premier russo, p.ex., é tão calculista que tudo dando errado na aventura que ele se lançou, ele tem a China para exportar o gás que os alemães não vão comprar. É só mudar o rumo do gasoduto. Tudo dando certo na estratégia de Vladimir Putin ele muda o balanço de poder mundial, obriga a Europa a revisar o seu modelo de segurança de Estado, incluindo a Rússia na Europa ou recriando uma ideia de Eurásia dos tempos czaristas, uma mistura de Europa e Ásia, um império todo seu.

O Declínio do Império Americano, de 1986, um filme canadense, dirigido pelo cineasta Dennis Arcand é somente uma obra de ficção, seguida logo depois por outra ficção chamada Invasões Bárbaras, de 2003, do mesmo diretor canadense, mas também é uma realidade de um império que não pode contra golpear a agressão russa a um aliado, pelo enorme risco da aniquilação mútua de um confronto nuclear e precisa responder com medidas do tipo de sanções e embargos econômicos que não têm se mostrado efetivos, p.ex., para afastar o ditador Assad da presidência da Síria, pra derrubar o comunismo na ilha de Cuba, para tirar Maduro do poder na Venezuela, ou para limitar os movimentos de Edorgan na Turquia.

A propaganda de guerra de todos os lados vai fazer as pessoas tomarem partido se alinharem. Ao lado do Biden, do Putin, dos russos, dos americanos, dos ucranianos. Quem tomar partido vai estar errado. O único partido possível é ser contra a guerra, na Ucrânia, na Europa e no mundo.

 

MARCELO GERALDO COUTINHO HORN, advogado e professor universitário (DIREITO/UNEMAT), Especialista em Direito Público, Mestre em Direito e Doutorando em Linguística. (marcelooabmt@hotmail.com)