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Domingo, 26 de Novembro de 2017, 19h:48

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AGROECOLOGIA

Projeto sustentável para fronteira de MT recebe prêmio nacional

Sociólogo de Mato Grosso propôs alternativa econômica a Municípios da região

Alair Ribeiro/MidiaNews

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O servidor público Maurício Munhoz, vencedor do Prêmio Celso Furtado de Economia

É sabido pela maioria dos brasileiros que praticamente tudo que comemos contém agrotóxicos, produtos usados para evitar algum tipo de praga em uma plantação e que se empregados inadequadamente podem gerar riscos à saúde.

Além disso, a produção em larga escala - como a da soja e milho em Mato Grosso - contribui para o desmatamento e pode concentrar renda.

Avaliando estes riscos e o perfil socioeconômico da fronteira de Mato Grosso com a Bolívia, o sociológo Maurício Munhoz, que é servidor de carreira do Estado, desenvolveu um estudo alternativo de agricultura sustentável para que seja implantado inicialmente nos 28 Munícipios da região.

"Cada Município terá uma base, com as cooperativas dos pequenos agricultores, onde será implantada uma cultura sustentável. Pode ser até soja, mas que seja uma cultura sem agrotóxico", explica.

"A agroecologia não é monocultura. Numa mesma propriedade você pode ter mais de uma plantação. Por exemplo: o arroz combinado com a castanha. Mas sempre na filosofia de mercado limpo".
Segundo Munhoz, a ideia é que cada Município constitua uma cooperativa e tenha pequenas unidades de agroindústria, que possam agregar valor à produção do campo.

Além da questão social e ambiental, o projeto também pensa no crescimento econômico dos Munícipios, que, conforme pesquisas, possuem indicadores de desenvolvimento social e ambiental ruins.

Intitulado “Agroecologia na Fronteira”, o estudo foi vencedor da categoria Centro Oeste do Prêmio Celso Furtado de Economia, que está em sua quarta edição.  

 

É pensar o negócio sobre os prismas sociais, políticos e econômicos se utilizando de novas tecnologias, não usando veneno e realizando o manejo sustentável com sementes tradicionais, cultivando alimentos em harmonia com a natureza e a cultura do local

O prêmio, do Ministério da Integração Nacional - e que será entregue no dia 5 de dezembro em Brasília -, tem como objetivo promover a reflexão sobre desenvolvimento regional no Brasil, discutindo com o poder público e a sociedade civil organizada a identificação de medidas concretas para a redução das desigualdades sociais entre as regiões e a promoção da equidade no acesso a oportunidades de desenvolvimento.

Em entrevista ao MidiaNews, o sociólogo explicou que agroecologia é uma nova forma de se estruturar o modo de produção na agricultura.

“É pensar o negócio sobre os prismas social, político e econômico, se utilizando de novas tecnologias, não usando veneno e realizando o manejo sustentável com sementes tradicionais, cultivando alimentos em harmonia com a natureza e a cultura do local”, disse.

O objetivo, conforme ele, é fomentar uma agricultura “limpa” no Estado.

“Estudos demostram que os agrotóxicos entram até no lençol freático e a água fica comprometida.  Então, essa cultura de agrotóxico tem consequências graves”, disse, citando uma pesquisa da UFMT que detectou traços de agrotóxico, inclusive, no leite materno.

“A ideia é a aproveitar os proprietários que estão lá e que estão deixando o local, vendendo suas terras, porque não têm uma opção econômica. Ao criar uma atividade econômica viável, espera-se que os moradores continuem lá”, argumentou.  

Com a premiação, conforme o servidor, a Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) já demostrou interesse em dar andamento ao projeto.

 

Retorno

 

Mas para dar certo é preciso apoio das Prefeituras, Governo Estadual e Federal.

"Os Municípios entram com a agroindústria, o Estado com uma política tributária e a União financia. O projeto prevê até o prazo de retorno desse investimento. Em 36 meses você implanta e 48 meses você tem o retorno. Ou seja, a Sudeco vai emprestar o dinheiro através do BNDES, mas essas cooperativas têm que pagar por isso”, afirmou. 

A intenção inicial é que o projeto inicie com 100 família de cada Município que receberão treinamento e para assistência no campo, crédito e comercialização. 

"A pequena agricultura num primeiro momento visa suprir o mercado municipal, depois regional e por fim estadual. Não tem princípio exportador a não ser para a Bolívia, que faz divisa ali e que na verdade é como se fosse regional", pontuou. 

"À medida em que o arranjo produtivo local se industrializa, com as plantas de pequenas agroindústrias, concluímos um ciclo ou uma engrenagem poderosa para a diminuição das desigualdades regionais e sociais", afirmou.

Conforme ele, o principal desafio do projeto é sensibilizar o Governo brasileiro a entender o projeto como política de Estado.

"Todas as 28 prefeituras abrangidas pelo programa são associadas à AMM [Associação Mato-grossense dos Municípios], que desenvolveu as plantas para a agroindústria, que são cedidas às prefeituras sem custo adicional", diz um trecho do escopo do projeto.